segunda-feira, 31 de março de 2008

Saudade - Miguel Falabella

Em alguma outra vida, devemos ter feito algo de muito grave, para sentirmos tanta saudade...
Trancar o dedo numa porta dói. Bater com o queixo no chão dói. Torcer o tornozelo dói. Um tapa, um soco, um pontapé , doem. Dói bater a cabeça na quina da mesa. Dói morder a língua, dói cólica, cárie e pedra no rim. Mas o que mais dói é a saudade.
Saudade de um irmão que mora longe,
Saudade de uma cachoeira da infância,
Saudade do gosto de uma fruta que não se encontra mais,
Saudade do pai que morreu, do amigo imaginário que nunca existiu,
Saudade de uma cidade,
Saudade da gente mesmo, que o tempo não perdoa.
Doem estas saudades todas.
Mas a saudade mais dolorida é a saudade de quem se ama.
Saudade da pele, do cheiro, dos beijos. Saudade da presença, e até da ausência consentida.
Você podia ficar no quarto e ela na sala, sem se verem, mas sabiam-se lá.
Você podia ir para o dentista e ela pra faculdade, mas sabiam-se onde.
Você podia ficar o dia sem vê-la, ela sem vê-lo, mas sabiam-se amanhã.
Contudo, quando o amor de um acaba, ou torna-se menor,
Ao outro sobra uma saudade que ninguém sabe como deter.
Saudade é basicamente não saber.
Não saber mais se ela continua fungando num ambiente frio.
Não saber se ele continua sem fazer a barba por causa daquela alergia.
Não saber se ela ainda usa aquela saia.
Não saber se ele foi à consulta com o dermatologista como prometeu.
Não saber se ela tem comido bem por causa daquela mania de estar sempre culpada,
Se ele tem assistido às aulas de inglês, se aprendeu a entrar na internet,
A encontrar a página do Diário Oficial, se ela aprendeu a estacionar entre dois carros,
Se ele continua preferindo Malzebier, se ela continua detestando McDonalds,
Se ele continua amando, se ela continua a chorar até nas comédias.
Saudade é não saber mesmo!
Não saber o que fazer com os dias que ficaram mais compridos,
Não saber como encontrar tarefas que lhe cessem o pensamento,
Não saber como frear as lágrimas diante de uma música,
Não saber como vencer a dor de um silêncio que nada preenche.
É não saber se ela está feliz, e ao mesmo tempo perguntar a todos os amigos por isso...
É não querer saber se ele está mais magro, se ela está mais bela.
Saudade é nunca mais saber de quem se ama, e ainda assim doer.
Saudade é isso que eu estive sentido enquanto escrevia
E o que você provavelmente estará sentindo depois que acabar de ler.

sexta-feira, 21 de março de 2008

Ensaio sobre a MINHA saudade

Saudade do tempo que ainda acreditava no ser humano.
Saudade do tempo que a vida parecia uma simples roda gigante (ela continua sendo uma roda gigante mas só não me avisaram que ela quebra nos piores momentos, sejam eles ventos fortes, chuva intensa...).
Saudade dos tempos de criança e viver sem preocupações, contas pra pagar, precauções.
Saudade de planejar a vida e vê-la acontecendo perfeitamente na minha cabeça.
Saudade do tempo em que o amor parecia ser um mar de águas calmas, onde não SE precisava lutar contra, nem sair de redemoinhos e nem afundar em buracos. Era só senti-lo!
Saudade do tempo que a vida era inventar outras ou imitar algumas.
Saudade do tempo que tudo parecia se resolver num estalar de dedos.
Saudade de amar sem medo, de ficar pensando que o príncipe ia aparecer.
Saudade de pensar no ser amado sem decepções, como se ele fosse o cara perfeito.
Saudade de beijar na boca sem a necessidade de mãos bobas (adoráveis!), porém a saudade é de sentir o gosto que o beijo tem.
Saudade de namorar debaixo do bloco.
Saudade dos tempos de colégio.
Saudade dos caras da banda que passava às tardes ouvindo.
Saudade de pensar que o cara podia ligar a qualquer momento e ficar naquela ansiedade boa.
Saudade de ter borboletas no estômago, sentir frio na barriga quando via o carinha que era afim.
Tenho saudade de muita coisa e muita gente. A vida me deixou um pouco mais dura, um pouco mais tolerante. Saudade é coisa boa... É coisa ruim! É dolorida... É alegre! Importante pra nos mostrar o quanto somos produto do que passamos!
Saudade, bela ou não, é um sentimento tão estranho, que somente na nossa estranha Língua Portuguesa ela é expressa em palavra!
Portanto, sintam muita saudade!!!

sábado, 1 de março de 2008

QUERIDOS AMIGOS: OBRA-PRIMA

Sei que não sou muito de falar sobre outras coisas senão dos meus sentimentos mais ítimos, mas agora, e espero fazer isso sempre, sobre minhas impressõessobre livros, filmes, programas de tv, moda, vida cotidiana, tudo que faça parte de nossas vidas.
Hoje quero falar da belíssima minissérie Queridos Amigos. Essa minissérie tem sido, pelo menos pra mim, encantadora, seja pelo tema central, que é a amizade, seja pela trilha sonora (remete-me a minha infância), por ser passada num tempo no qual eu já existia e sei bem o que tava acontecendo (1989: queda do Muro de Berlim, primeiras repúblicas da União Soviética lutando por suas independências, primeiras eleições diretas no Brasil pra Presidente da República, Madonna bombando etc), pelas irretocáveis interpretações, destacando o perverso e carente Benny (Guilherme Weber),traumtizado viúvo Pedro (Bruno Garcia) e a torturada Bia (Denise Fraga), a luz, os cenários, o figurino, a direção... Enfim, um trabalho maravilhoso.
Começarei meus comentários pelo tema central. A amizade é um tema pouco explorado na televisão. Não me lembro de nada parecido. É lindo ver alguém, mesmo no fim de sua vida, ter tanto carinho e respeito por seus amigos e aceitá-los como são. Saber da importância que os amigos têm em nossas vidas é difícil. Esse resgate é o que propõe a minissérie.
A complexidade de cada personagem também é um ponto forte, pois geram diálogos bastante interessantes, comoventes, duros, estarrecedores, chocantes e, não menos, emocionantes. Posso destacar que mais de uma vez me senti vivendo algo parecido... Porém, destaco como os melhores, apesar da acidez e sordidez, o do personagem interpretado por Guilherme Weber, o Benny. Com que frieza e displecência de como se fala de um assunto qualquer que ele revela que era molestado sexualmente por seu pai na infância... Com que carência e saudadedeita-se no colo da mãe do amigo de infância, que está doente de Alzeheimer, aos prantos quando esta fala de sua mãe. Lindo e emocionante!
A Bia... Que excelente Bia Denise Fraga faz! Uma mulher adormentada por ter sido estrupada por um torturador durante a Ditadura... Como ela descreveu essa cena, parecia que realmente tinha vivido aquilo. Parabéns, Denise! Lindo trabalho.
O Léo ( Dan Stulbach), personagem central, que é de uma delicadeza de interpretação e dureza de realidade; de ser amigo dos seus amigos, de aceitar cada um como é, de gostar deles apesar de seus defeitos. É tão irretocável que não há o que se comentar!
Débora Bloch, a Lena, uma artista plástica movida a paixão, que desfaz de um casamento, tem problemas de relaciomento com a mãe e a filha.
Há vários personagens e tramas interessantes. Não vou me alongar muito, apesar de valer muito a pena. Não estou sozinha nessa. Veja o blog de Zeca Camargo (http://colunas.g1.com.br/zecacamargo/)